Regina Duarte está sendo processada por apologia à tortura após declarações dadas em entrevista


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A atriz e ex-secretária da Cultura, Regina Duarte, está sendo processada por apologia à tortura pela advogada Lygia Jobim, filha do diplomata, editor e jornalista José Jobim, que foi torturado e morto pelas autoridades brasileiras militares, em 1979. Lygia afirma ter ficado ‘absolutamente estarrecida’ ao assistir a uma entrevista de Regina enquanto ainda secretária.

“É uma naturalização da tortura, um deboche com nossos mortos”, disse Lygia, que hoje tem os mesmos 69 anos que seu pai ao ser morto. “Fiquei dois dias com isso entalado na garganta. E então resolvi procurar a Justiça. Essa senhora me ofendeu. Fez pouco de algo que me afetou profundamente, que foi não poder me despedir de meu pai porque ele foi enterrado em caixão fechado devido às marcas da tortura.”

Regina Duarte não se manifestou sobre o caso.

A entrevista

No dia 7 de maio, Regina Duarte concedeu uma entrevista à CNN, onde falou: “Bom, mas sempre houve tortura, sempre houve… Meu deus, Stalin, quantas mortes? Hitler, quantas mortes? Se a gente for trazendo mortes, arrastando esse cemitério… Desculpe, mas não, não quero arrastar um cemitério de mortos nas minhas costas. Eu não desejo isso para ninguém. Eu sou leve, sabe? Eu estou viva, estamos vivos, vamos ficar vivos. Por que olhar para trás? Não vive quem fica arrastando cordéis de caixões”.

José Jobim

José Jobim foi sequestrado nas ruas do Rio de Janeiro em 22 de março de 1979. Aposentado da carreira de diplomata, ela havia criado uma editora com a filha Lygia no início dos anos 1970. Um dos mais famosos livros publicados pela Editora Brasília foi “Zero”, de Ignácio de Loyola Brandão, lançado em 1975 e censurado em seguida.

Em 1979, Lygia estava grávida de seu primeiro filho com Ênio Silveira, editor da Civilização Brasileira. Já seu pai escrevia um livro em que denunciaria a corrupção na construção da Usina de Itaipu. Como diplomata, José Jobim havia participado das primeiras tratativas para a compra das turbinas, anos antes, mas seguiu interessado no assunto e vinha reunindo documentos e reportagens, especialmente sobre o fato de a obra estar custando muitas vezes mais que o programado.

Uma semana antes do sequestro, José Jobim havia ido, na condição de ex-embaixador, à posse do general João Batista Figueiredo, em Brasília. Lá, segundo um amigo senador contou depois à família, Jobim disse a diversos presentes que estava escrevendo um livro sobre a corrupção de Itaipu. O senador chegou a arrastá-lo para um canto e pedido juízo, pois os denunciados eram os mesmos que estavam ali na festa.

Trinta e seis horas após o sequestro, seu corpo foi encontrado ao lado de uma pequena árvore da Barra da Tijuca, com os pés no chão, mas com uma corda no pescoço que simulava um suicídio por enforcamento. Meses depois, a viúva e a filha se deram conta que todos os documentos e escritos referentes a Itaipu haviam sumido dos arquivos de Jobim.

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Anderson Siqueira

Editor-chefe, escritor, professor de idiomas e assina o Blog do Siqueira
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