‘Sou mulher, isso te incomoda?’, diz ex-técnica do Rio Branco FC após críticas por ter pedido desligamento por causa de Bruno

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‘Eu não tenho problema em ser mulher’, assim começa uma publicação no Facebook de Rose Costa, ex-técnica do time feminino do Rio Branco FC que pediu desligamento na última segunda-feira (27) após o anúncio do presidente Neto Alencar da contratação de Bruno Fernandes, ex-goleiro do Flamengo condenado pelo assassinato de Eliza Samúdio em 2010.

Rose diz que o que lhe chamou a atenção a perpetuação da discriminação da mulher no cenário futebolístico, sendo ela profissional da educação física, treinadora de futsal e futebol e ex-atleta, além de seu trabalho no esporte, Rose acumula em seu currículo o carinho de todos os seus alunos enquanto foi professora, além de ter sido diretora do Colégio Acreano e vereadora de Rio Branco.

Em sua publicação, ela escreveu:

“Eu não tenho problema em ser mulher…

Prazer, sou Rose Costa, profissional de Educação Física, CREF 183-AC, especializada em gestão e planejamento, professora concursada do estado do Acre (30 anos de efetivo exercício), TREINADORA de futsal e futebol, ex-atleta de futsal, e sou MULHER. Isso te incomoda??

Após a publicação do meu desligamento do Rio Branco Footbol Clube, como TÉCNICA da equipe feminina, confesso que a princípio me surpreendeu a velocidade com que a notícia se socializou e com a quantidade de carinho que recebi expresso em mensagens, post, compartilhamentos, telefonemas e outros, os quais sou imensamente grata.

Mas um fator me chamou a atenção: a perpetuação da discriminação da mulher no cenário futebolístico. A impressão que tive foi o retorno a 1.941, onde as mulheres não deveriam praticar esportes que não fossem adequados a sua natureza. E obviamente, o futebol não se enquadrava nessa máxima de “natureza feminina”.

Quando ontem finalizei afirmando que “nunca será só futebol”, apesar de fazer uma ideia do impacto que essa afirmativa causaria, positivamente; é do meu gene ver positividade em toda e qualquer situação, a dimensão dessa afirmativa se fez real através das milhares de mensagens de apoio e sororidade recebidas por mim, e reforço aqui minha gratidão. Mas também, as várias “outras” mensagens recebidas, encaminhadas, publicadas, comentadas sobre quem eu sou, e acima me apresento para que não haja mais dúvidas. Sobre minha decisão, e esse arbítrio eu não abro mão, é meu o poder de decidir sobre minha vida pessoal e profissional, onde, quando e com quem desejo estar e trabalhar, e creiam, sobre o fato de eu ser MULHER.

Demorei horas para compreender, em que se pese que estamos no século XXI, que para grande maioria da sociedade; sociedade esta composta por 51,6% de mulheres, ser mulher e ser profissional, em qualquer área, aqui especificamente no futebol tem conotação de “menos”. Menos capacidade, menos experiência, menos qualidade, menos liderança. Quando na verdade o que se têm é menos oportunidade, menos remuneração, menos reconhecimento, menos estrutura, menos VALORIZAÇÃO e infelizmente MAIS DISCRIMINAÇÃO.

E não se enganem, a discriminação à mulher no futebol é só a ponta do iceberg da tradução da realidade vivida em nosso país. É verdadeiro afirmar que se essa discriminação se perpetua por ficarmos inertes. Entramos numa nova fase, avançamos no processo de conscientização da importância do exercício de nossos direitos, sejam eles profissionais ou privados, mas mesmo conscientes entramos num modismo em acreditar que somos “fortes”, e de que não precisamos de REPRESETATIVIDADE e RESPEITO.

À partir de 2021, tem início uma nova realidade no futebol feminino, e isso gerou um corre dos clubes em montar e/ou fortalecer as equipes de futebol feminino, pois devem cumprir a obrigatoriedade de terem equipes femininas, que se DEUS quiser povoarão a disputa do Brasileiro Série A2, consequência de conquistas com relação a obrigatoriedade vinculada ao recebimento de recursos financeiros. Coincidência ou não, eu e muitas outras técnicas recebemos convites de clubes e os trabalhos foram iniciados…

Entendam, o futebol feminino é arte, tanto quanto, gera emprego e renda, tem protagonismo, histórias de conquistas, é real, e precisa ser entendido em nosso país e estado como espetáculo principal e não coadjuvante. Necessita e MERECE ser valorizado.
Precisamos entender a amplitude da palavra discriminação, e dizer NÃO.

Precisamos combater o MACHISMO de homens e, principalmente o propagado por mulheres, que em grande maioria das vezes é resultado de um processo cultural, que é conivente, vexatório, e que reproduz cada vez mais violência a mulher, em todas as instâncias e setores, e que em nosso estado está constatado, na triste realidade em sermos o estado com maior índice de violência a mulher do Brasil. É fato.

Precisamos dizer NÃO a VIOLÊNCIA, seja ela física, psicológica, social, VIRTUAL, discriminatória. ERGA A SUA VOZ contra toda e qualquer forma de INJUSTIÇA, e se ela se traduzir em injustiça legislativa ou legal, onde o estado não cumpre o seu papel, faça valer o seu CARÁTER, a justiça moral, que consequentemente teremos uma sociedade mais justa e igual. Se apoiar na omissão das leis, ou no resultado da ineficiência das mesmas é ser coadjuvante de um processo de deterioração de gerações futuras, de propagação de mais INJUSTIÇA. SEJA EXEMPLO do que é ser cidadão, e essa palavra não tem dubiedade, faça valer também seus DEVERES.

Quanto aos meus belos olhos, meus cabelos alourados, minhas coxas torneadas, meu gingado de mulher, continuam os mesmos e não decrescem em nada minha capacidade profissional nem moral, nem tampouco, minha consciência cidadã.”

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