PELA ORDEM

Uma pitada de História, dois chopes e a conta – A renúncia de Jânio Quadros


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Há quem afirme que a renuncia do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961 foi a grande responsável pelos vinte e um anos de ditadura militar no Brasil. Imputando-lhe assim, parte da “culpa” pelo tenebroso período de violência, torturas e mortes no país. Mas o que poucos sabem é que a renúncia de Jânio foi um plano do próprio presidente, que dera errado.  Na verdade o que ele queria era mais poder e não renunciar ao cargo.

Jânio teve uma ascensão política meteórica. Foi eleito vereador de São Paulo em 1947, deputado estadual em 1950, prefeito da capital paulista em 1953, governador do estado em 1954, deputado federal em 1958 e presidente em 1960. Seu estilo de fazer política era centrado em sua figura, construída para mostrá-lo como um homem simples, do povo. Usava roupas surradas, comia sanduíches de mortadela e jogava talco nos ombros para simular que tinha caspa. Dirigia-se à população com um vocabulário peculiar, o que o tornava incompreendido em alguns momentos, além de se gesticular de modo espalhafatoso. Um populista em grau, gênero e número.

O Brasil estava numa encruzilhada diplomática, se aproximando do bloco socialista e com isso criando atritos com os EUA, seu maior parceiro comercial. Por muito tempo, as razões da renúncia de Jânio eram desconhecidas, gerando grande debate. Mas apenas em 1992, esse mistério fora resolvido.

Depois do falecimento de sua esposa, vítima de câncer, Jânio ficou com a saúde muito debilitada. Já idoso, o ex-presidente estava muito fraco e sofria de diversos problemas. No seu leito de morte e sabendo que tinha pouco tempo de vida, ele decidiu abrir o jogo e explicar a estranha e inesperada renúncia. Meses após ele morreu.

A única testemunha, escolhida por Jânio, para contar toda a verdade sobre a sua renúncia, foi seu neto, Geneton Moraes Neto, que só revelou o teor da conversa em uma entrevista exclusiva ao Fantástico em 1999. “Eu sempre tive medo de conversar com ele sobre esse assunto”, relatou, pois o avô tinha o tema como tabu. Para Jânio, a renúncia era uma marca vergonhosa do passado e, por isso, foi segredo até sua morte.

A renúncia de Jânio Quadros, na verdade, foi uma tentativa de golpe para que ele assumisse com maiores poderes. Nunca falando nessas palavras, a versão do ex-presidente ao neto, dita quando estavam sozinhos no quarto do hospital, foi polida e eternizada, pois o rapaz transcreveu todo o testemunho:

“A minha renúncia era pra ter sido uma articulação. Eu nunca imaginei que ela seria de fato aceita. Tudo foi muito bem planejado, organizado, por exemplo, eu mandei o vice-presidente João Goulart em uma visita oficial à China, o lugar mais longe possível. Assim ele não estaria no Brasil para assumir no meu lugar ou fazer articulações políticas. Eu acreditava que não haveria ninguém para assumir a presidência. Eu pensei que os militares, os governadores e principalmente o povo nunca aceitariam a minha renúncia. Pensei que iriam exigir que eu ficasse no poder, porque Jango era inaceitável para a elite. Achei também que era impossível que ele assumisse porque todos iriam implorar para que eu ficasse. E eu renunciei no Dia do Soldado, porque queria sensibilizar os militares, conseguir o apoio deles. Imaginei que em primeiro lugar o povo iria às ruas, seguido pelos militares. Os dois me chamariam de volta. Achei que voltaria para Brasília com glória. Deu tudo errado”.

No ano seguinte à renúncia – 1962 – Jânio foi candidato a governador de São Paulo, sendo derrotado por seu desafeto Ademar de Barros. Com o surgimento da ditadura militar de 1964 foi um dos três ex-presidentes a ter seus direitos políticos cassados, ao lado de João Goulart e Juscelino Kubitschek.

 

 

 

 

 

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Rodrigo Farias

Colunista político, autor do livro "Vem Comigo... No Caminho Eu Explico"
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