VISÕES DA GUERRA

Correio 68 conversa com ucraniana que apoia Putin na invasão ao próprio país; leia com exclusividade


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Era novembro de 1991, o mundo presenciava a queda de uma potência mundial que demonstrou tamanha força na Segunda Guerra e cravou um embate frente a frente com os Estados Unidos… Falo, claro, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Com o fim da URSS, várias nações que a compunham ganharam suas independências dando origem a “novos” Estados perante o mundo. Dois destes Estados, antes irmãos, hoje estão no centro das atenções do planeta, lutando uma guerra que o mundo ainda não sabe que consequências irá gerar.

De um lado está a Rússia, liderado por um ex-espião soviético que governa à mão de ferro e inspira confiança em seu povo; do outro, a Ucrânia, que tem na linha de frente um ex-ator e comediante que nem nos filmes que gravou viveu algo tão intenso que o fez vestir a personalidade de um homem corajoso e firme pelo desejo de autonomia de seu país.

Zelensky vs Putin. O frente-a-frente entre o ″palhaço″ e o espião
Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia (à esquerda); e Vladimir Putin, presidente da Rússia (à direita)

Os dois países já vinham se estranhando há anos, mas uma recente “ameaça ocidental” fez com que o Vladimir Putin exibisse seu forte poderio bélico com uma invasão letal a qualquer cidadão ucraniano que entrasse em seu caminho. A Ucrânia negociava a entrada na OTAN, uma espécie de “clube de amigos” que tem como objetivo um país ajudar o outro contra qualquer “valentão” que se aproximasse. No ato de sua criação em 1949, o valentão tinha nome: a URSS. A questão é que a OTAN é liderada pelo outro valentão da Guerra Fria e ter a Ucrânia em seu grupo, significa em termos informais: “sambar na cara da Rússia”.

Putinismo – Wikipédia, a enciclopédia livre
Vladimir Putin

E com isso… Você já viu a cara de Putin? Ele não aparenta ser alguém que aturaria tamanho afronte. O presidente russo ainda tem fresca na memória as lembranças da antiga URSS e ele realmente não aturou ver a aproximação do Ocidente com sua fronteira. Há uns dias, conversei com uma russa de São Petersburgo sobre sua visão da atitude de Putin em invadir a Ucrânia. Mesmo afirmando ser contrária à guerra, ela demonstrou confiar bastante em seu presidente e me sinalizou que o nacionalismo pela antiga União Soviética faz com que até mesmo ucranianos apoiem a invasão.

Claro que receber uma informação assim me deixou curioso. Afinal, o que leva uma pessoa a apoiar uma invasão contra seu próprio país? Foi então que minha busca por desvendar esse enigma me levou até Yana, nascida na cidade de Odessa (Ucrânia), que atualmente mora em Istambul, na Turquia, a trabalho.

Yana nasceu dois anos antes do fim da União Soviética e desde quando sua memória pode alcançar, viveu como se Ucrânia e Rússia fossem apenas distritos diferentes de uma mesma nação. Em seu exemplo, ela usou as cidades turcas de Istambul e Diyarbakır – esta última é conhecida como ‘capital dos curdos’, uma outra etnia que habita a Turquia (os cidadãos curdos têm cidadania turca, mas possuem cultura diferente e até mesmo um idioma próprio).

“Muitos ucranianos têm familiares e amigos na Rússia, minha avó nasceu onde hoje é território russo. Mas a Ucrânia quer se afastar das origens”, disse, se referindo às inúmeras reformas promovidas pelo presidente Volodymyr Zelensky.

Conversei por cerca de 45 minutos com Yana, seu nacionalismo eslavo é tão evidente que entre os três idiomas que fala estão o ucraniano (nativo), o russo (que já foi obrigatório em escolas ucranianas) e o turco (onde mora). O inglês até foi ensaiado na entrevista, mas de forma muito limitada. Por sorte, o turco é um dos idiomas que já tive contato e conseguimos concluir por esse caminho. O que pude notar é que ela claramente teme que uma ocidentalização da Ucrânia possa romper as relações com a Rússia, criando um “muro” entre os dois países como nas Coreias do Norte e do Sul: “a guerra pode durar 10 anos, mas Rússia e Ucrânia continuarão a existir lado a lado. Não se pode mudar a geografia”, disse.

Tomada da Crimeia pela Rússia (2014) - História - InfoEscola
Mapa contendo as fronteiras entre Rússia e Ucrânia

Para Yana, o grande culpado pela guerra são os EUA, ela acusou o país comandado por Joe Biden de usar a Ucrânia como instrumento para cravar sua guerra contra a Rússia:

“Ucrânia foi uma moeda dos Estados Unidos. Quando eles promoveram guerra em Israel, Síria, Palestina etc, o mundo inteiro ficou em silêncio. Falam que a Rússia iniciou uma guerra por nada, quando os Estados Unidos invadiram esses países foi por nada. Mas agora, Putin está tentando salvar o povo, está sendo sábio. Não queremos a guerra, a guerra mata pessoas inocentes, é meu povo que está morrendo e eu só quero que isso pare, mas existe um outro lado da história. A Europa se curva para os Estados Unidos, Putin não. Agora a Rússia terá essas sanções, porque a Europa faz o que os Estados Unidos querem e o que eles querem é destruir a Rússia”, diz.

Perguntei se ela conhece outros ucranianos que pensam como ela, ou se é uma minoria entre as ideias:

“Quero que você saiba que nem todos os ucranianos pensam como eu, alguns querem se desligar da Rússia, eu lamento, é a nossa história. Mas muitos outros são contra a entrada da Ucrânia na OTAN, isso não significa que apoiamos a guerra, um amigo meu de Donetsk me surpreendeu dizendo que é triste pensar que se a guerra acabar agora, toda essa m*rda que vem acontecendo desde 2014 vai continuar. Eu não penso como ele, eu estou triste porque é irmão matando irmão, tem filho ligando para sua mãe dizendo que ela não é mais sua mãe. Amigos me ligaram dizendo que agora são meus inimigos porque sou ucraniana e a Ucrânia traiu suas raízes. Eu só quero que essa guerra acabe.”

Por fim, perguntei se ela tinha esperanças de que a guerra acabe logo ou se acredita que tomará maiores proporções:

“Eu sinceramente não sei. Torço para que negociem a paz. O que sei é que a guerra de alguma forma um dia vai acabar, mas as vidas que foram perdidas não voltarão e cada dia que demoramos para resolver esse conflito, mais gente vai morrendo”.

*Este artigo foi escrito por Anderson Siqueira, editor do Correio 68 e expõe informações de uma entrevista feita na madrugada desta sexta-feira (2). Os fatos narrados têm como base essas informações, sem relação com a opinião pessoal deste colunista.

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Anderson Siqueira

Editor-chefe, escritor, professor de idiomas e assina o Blog do Siqueira
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